CONHEÇA A HISTÓRIA DA PRIMEIRA PASTORA LUTERANA DO BRASIL


PRA. EDNA REALIZOU UM MARCO E CONQUISTA PARA A ATIVIDADE MINISTERIAL DE PREDOMINÂNCIA ATÉ ENTÃO MASCULINA




FOTO| FORMATURA DA PASTORA / ARQUIVO PESSOAL


o Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há 93 milhões de mulheres cristãs no país. Destas, 517.115 são adeptas do luteranismo, um dos principais segmentos cristãos do mundo - com aproximadamente 85 milhões de fiéis- , e tem por base a teologia de Martinho Lutero, um frade católico, reformador e teólogo alemão que desarrolou a Reforma Protestante.

Em sua maioria, as irmãs luteranas brasileiras descendem de colonos europeus e alemães, o que justifica a predominância de mulheres nas regiões sul e brancas ( 465.603), seguido das pardas ( 42.117), pretas (7.034), amarelas (1.707) e indígenas (654). O nível escolar das fiéis luteranas ainda é baixo, muitas delas concluíram apenas o Ensino Fundamental até o Ensino Médio Completo, de acordo com o censo demográfico de 2010.


O livro "Um novo lar na imensidão da Mata", detalha a história da família luterana Ramminger. Sobrenome herdado pelo marido, o Pastor Oto Ramminger.

Ainda assim, entre tantas mulheres virtuosas e incríveis, conheça a história da Pastora Edna Moga-Ramminger, que ousou romper os padrões culturais impostos e se tornou a primeira teóloga e pastora de uma paróquia na Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil.

Em 1973, aos 18 anos, Edna ingressou na Instituição de Ensino e Pesquisa Faculdades EST, localizada em São Leopoldo, Rio Grande do Sul, iniciando assim os estudos em Teologia. A escola comunitária e confessional luterana é reconhecida por ser uma das primeiras instituições acadêmicas de Teologia do país (1946) - atrás apenas dos seminários teológicos Metodista (1881) e Batista (1908).


Após sua formação, a filha de Dona Julia Sarti Moga, recebeu uma “bênção simbólica ao ministério”,

o que levou a assumir o posto de pastora colaboradora, em 1978. Após 3 anos em missão e preparação, sob incertezas, no dia 13 de novembro de 1982, Edna se tornou a primeira teóloga e pastora ordenada da Igreja Luterana brasileira.

Pioneira, sua ordenação foi um marco da ordenação de mulheres na IECLB. O que possibilitou, cada vez mais, o ingresso de mulheres na faculdade, resultando em esperança para irmãs que ansiavam servir e seguir o seu chamado pastoral.


Ainda nos primeiros anos de ministério, atuou no nordeste brasileiro, implantando igrejas no estado de Rondônia e Mato Grosso, onde teve contato direto com povos ribeirinhos e a comunidade indígena suruí, em Espigão do Oeste.



CONFIRA IMAGENS DESSE PERÍODO

FOTOS| REPRODUÇÃO/ FACULADES EST

Conhecida por sua simplicidade, a pastora era ativa nos movimentos camponeses e clamava pela defesa da agricultura familiar, atuando sempre com uma atitude corajosa diante dos desafios pastorais, tendo em vista as dificuldades de locomoção entre as comunidades amazônicas e a própria administração e autonomia de ser mulher em âmbitos predominantemente masculinos. Através de uma hermenêutica feminista, ou seja, que parte do olhar e cuidado da mulher , Edna Moga Ramminger incentivou a discussão sobre questões como o casamento e a ordenação feminina, sendo uma referência para outras luteranas.


A convite, o pastor e a pastora Ramminger, no dia 8 de janeiro de 1989, assumiram o pastoreio da paróquia da Juína, localizada no noroeste de Mato Grosso, e permaneceram até junho de 1993. O casal realizava apicultura entre os agricultores da região e visitava as comunidades.


Pastor Oto Hermann Ramminger, companheiro de vida da Pastora Edna.

Sobre a união com o Pastor Oto Hermann Ramminger, não encontramos registros do seu casamento, porém, vale lembrar a doutrina matrimonial imposta pelas igrejas protestantes no que tange à ordenação pastoral. Logo, presumimos que o casamento da pastora tenha ocorrido antes de sua ordenação.


Reservados, o casal Ramminger teve dois filhos e, juntos, serviam ao Senhor, não só nos púlpitos e nas comunidades, ambos dividiam a paixão pela Palavra, visível em artigos e publicações, com ensaios sobre o amor e as bençãos

matrimoniais. O primeiro casal de pastores da igreja luterana eram frequentemente procurados por casais em seu gabinete pastoral.


No sábado, 30 de Janeiro de 2021, aos 66 anos, a Pastora descansou no Senhor, e foi sepultada no cemitério dos Evangélicos, na cidade de Rio Claro, interior paulista.


"Que sua história e legado continue inspirando mulheres a exercer o ministério ordenado na Igreja. Que seu testemunho desafie igrejas que não ordenam mulheres a rever seus conceitos teológicos, considerando que Deus não faz acepção de pessoas na vocação para o exercício do ministério pastoral", disse em nota, a página do "Programa de estudos sobre Gênero e Religião" do seminário que a formou como teóloga.








CONFIRA UM TRECHO DA MINISTRAÇÃO FEITA PELA PASTORA EDNA RAMMINGER EM SEU 30º ANIVERSÁRIO DE ORDENAÇÃO PASTORAL:



" O culto de hoje é um culto de gratidão a Deus pelos 30 anos de ordenação de mulheres ao ministério na nossa Igreja, a IECLB. Gratidão pelo fato de mulheres serem reconhecidas como capazes de participar, lado a lado com homens, na missão de Deus neste mundo. No dia 13 de Novembro de 1982, fui ordenada ao ministério pastoral, em Colorado D’Oeste/RN, e passei a ser a primeira mulher ordenada ao ministério em nossa Igreja e a data da minha ordenação passou a ser o início da ordenação de muitas mulheres na IECLB.


É importante esclarecer que não fui a primeira mulher a estudar Teologia, outras já haviam feito o curso na então Faculdade EST, mas sem assumir um pastorado na Igreja, também não fui a primeira mulher a exercer o ministério pastoral em nossa Igreja (referindo-se às irmãs que eram pastoras, mas não haviam foram ordenadas).



Estou convicta de que a vocação vai se formando na vivência da comunidade. A vocação vai se concretizando na dinâmica da comunidade, desde a infância. Lembro-me do sentimento de pertencer à comunidade e, como grupo de jovens, ter tarefas a realizar. Creio que esse sentimento de pertencer, de fazer parte e, portanto, ter algo a realizar, uma tarefa, esse sentimento, vai nutrindo a vocação.


“Cristo é como um corpo, o qual tem muitas partes. E todas as partes, mesmo sendo muitas, formam um só corpo. Pois bem, vocês são o corpo de Cristo, e cada um é uma parte desse corpo.” (v.12, 13, 27). Cada um tem seu chamado e seu lugar neste corpo, a Comunidade funciona como o harmonioso corpo de Cristo, podendo criar o ambiente favorável para que qualquer pessoa descubra que pode exercer sua profissão como vocação.





O ministério ordenado na Igreja, hoje exercido por mulheres e homens, tem entre tantas outras, a tarefa muito especial, e difícil, de orientar a comunidade -a Igreja- a viver como o verdadeiro corpo de Cristo. Essa tarefa foi a mais difícil, mais desafiadora, de muitas alegrias e também decepções, durante o meu exercício do ministério pastoral. Uma tarefa que deve ser executada com autoridade, a autoridade concedida pela Igreja que ordena ao ministério. Mas tarefa que também deve ser realizada com humildade. A humildade de quem constantemente precisa responder pela sua vocação. A humildade de quem sabe que está apenas a serviço de Deus. Nós, ministras e ministros ordenados, precisamos ter sempre a consciência que João Batista teve quando falou a respeito de Jesus:


“Ele tem de ficar cada vez mais importante, e eu, menos importante.” (João 3.30)




ORDENAÇÃO DE MULHERES LUTERANAS

O QUE MARTINHO LUTERO NÃO REFORMOU FOI A ESFERA MACHISTA


As mulheres são presença constante nas Igrejas, testemunhando o amor de Deus desde os tempos mais antigos até os dias de hoje. Algumas dessas mulheres experimentaram (e experimentam) sua relação com o sagrado dentro dos limites e dos padrões impostos, outras ousaram (e ousam) romper as fronteiras da cultura e do preconceito, abrindo novos caminhos, ousando conhecer e ser um “novo aroma” na vida das Igrejas. Elas ousam experimentar outras possibilidades de vida eclesiástica dentro de seus contextos. A história das mulheres no ministério ordenado é muito recente. No entanto, é possível afirmar que a luta em busca da ordenação das mulheres e a sua experiência na liderança das Igrejas acompanham toda a história eclesiástica.







Martinho Lutero tentou reformar a Igreja, mas falhou ao não reformar o âmbito machista e anticristão que o cercava, o que possibilitou a manutenção do silenciamento de mulheres virtuosas até hoje. É dele a infeliz frase:


“Não há maior defeito numa mulher que o desejar ser inteligente.”


Na contramão do líder luterano, jovens mulheres "desejaram ser inteligentes", embora o início da instituição apenas aceitasse homens para os estudos de teologia, já em 1952 essa história começou a mudar com o ingresso da estudante Eve Wysk, a primeira mulher a matricular-se na Faculdade de Teologia. Na sequência, outras duas mulheres também se matricularam: Sybille Raspe, em 1957, e Úrsula Kleine, em 1962.


Segundo Maristela Freiberg, o objetivo destas três estudantes, que permaneceram estudando por um ano, era “receber uma complementação dos estudos realizados no Instituto Pré-teológico (IPT), para fins de reconhecimento como formação secundária. Não tinham a perspectiva de bacharelar-se”.


Já com o anseio de concluir o curso e ser pastora, Elisabeth Dietschi ingressou na FACTEOL, em março de 1966. Em junho de 1970, ela se tornou a primeira mulher com o título de bacharel em teologia, formada pela FACTEOL. Elisabeth seguiu para Alemanha para realizar uma especialização teológica, com uma bolsa de estudos de um ano, onde se casou, sendo ordenada pastora em maio de 1973, em Berlim, pelo Bispo Scharf da Igreja Evangélica da União.





Elisabeth Jucksch, Elisabeth Dietschi e Nersi Jaeger Becker / FOTO | Nelson Schlup

Lorita Manske ingressou em 1967 e abandonou o curso em 1969. A segunda mulher a se formar, além de Maria Luíza Schwanke, que iniciou seus estudos em 1968 e realizou o exame de conclusão em 1974. Ela foi enviada para trabalhar na Fundação Evangélica, ao lado da Comunidade Evangélica de Hamburgo Velho, assumiu como pastora colaboradora em 1975, licenciou-se em 1989, saindo do pastorado em 1991.


Na seqüência, encontramos o nome de Esbeth Shütz, que ingressou em 1970, tendo cancelado seus estudos em 1975 e concluído posteriormente em 1981. Rita Marta Panke foi a oitava na lista de matrículas e a terceira a ter o título de Bacharel em Teologia. Ela estudou entre os anos de 1971 e 1976.Rita foi instalada em 1º de agosto de 1976, em Candelária/RS, onde assumiu as atividades pastorais naquela Paróquia.



As três primeiras pastoras formadas e ordenadas pela IECLB são, respectivamente, Edna Moga Ramminger, que assumiu como pastora colaboradora em 1978 e foi ordenada em 13/11/1982; Rita Marta Panke, que assumiu como pastora colaboradora em 1976 e foi ordenada em 20/04/1983; Mariane Beyer Ehrat, que assumiu como pastora colaboradora em 1979 e foi ordenada em 01/06/1986.




Meditações Diárias - Pastora em. Rita Marta Panke/ YOUTUBE


A ordenação das mulheres aos demais ministérios apenas teve início com a implantação do “ministério compartilhado”, a partir de 1994. Antes disso, as diáconas recebiam apenas uma “bênção ao ministério”. O mesmo aconteceu com as catequistas, que até então não tinham nenhuma forma de reconhecimento público e eclesiástico para o exercício de suas funções.


Nos anos 90, a criação da Cátedra de Teologia Feminista significou um avanço significativo na formação teológica com importante contribuição para a IECLB. Muitas foram as mulheres que passaram pela Faculdades EST e hoje desempenham o seu ministério na Igreja.



“No dia da ministra e do ministro reafirmamos a compreensão luterana de ministério que valoriza e aceita todas as pessoas chamadas por Deus em seus diferentes dons (1 Co 12) e a importância da ordenação de mulheres como elemento fundamental na construção da justiça de gênero. Nesse dia 10 de junho, dia da ministra e do ministro, a Faculdades EST se orgulha de ter participado ativamente na história do ministério ordenado e convida todas as pessoas a celebrarem a ordenação de mulheres ao ministério ordenado."


Segundo dados levantados em 2000, a quarta universidade entre todas as universidades brasileiras em termos de número de alunos (e a terceira entre as particulares) chama-se Universidade Luterana do Brasil

(ULBRA).


**SAIBA MAIS EM: Mulheres e Ordenação na IECLB, LIGIANE TAIZA MÜLLER FERNANDES